Cavalo Crioulo

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Cavalo Crioulo, a raça multifuncional.. !


É cavalo pra peão, de resistência e alento, mui barato o seu sustento, servindo para soldado, sabe dormir no molhado, aguenta firme o relento.

É de pêlo bem variado: gateado, baio, lobuno, zaino, rosilho, cebruno, mouro, chita, também é, e às vezes sai pangaré, buenaço mesmo reiúno.

Tordilho salino é Crioulo de muita lei pra nadar, bicho bueno pra apartar... não quero pêlo tostado nem tordilho apatacado... Tobiano só pra olhar...

Um e quarenta de alçada é o tamanho especial, com mais de cinco é o ideal. Um e cincoenta é grandão, dando um tipo almanjarrão só pra cruzar banhadão.

Gosto de "Peito de pomba" com costela bem arqueada: aguenta bem na tropeada, porque tem pulmão de ferro. Cavalo de muita "massa" com muito pêlo na pata, pisando em cima das mata.

Para escolher o bom pingo aqui les dou instrução: olhe bem o seu garrão, busque a corda destacada, que a pata seja aprumada, e bem à mostra o tendão.

"Cáalo" de bom movimento olho vivo se requer, boa anca se faz mister. O gaúcho e tarimbeiro, que se sai sempre folheiro pra escolher pingo e mulher!

Não serve a canela fina, com muito pouco tendão: falta força no garrão, quase sempre anda caindo, pior que vaca parindo por cima de qualquer chão.

Prefere o "casco de copo", nunca o casco de panela: falta força na canela, é um chaira pra tropeçar, se não sabe sair dela.

A cabeça do Crioulo deve ser piramidal, se ajusta bem ao boçal, é mui linda de se ver e sempre de requerer num cavalo especial.

Orelha de burro - não! "Cabano" de desprezar: abana, mesmo ao trotear... Prefiro orelha em tesoura cavalo que não desdoura e sabe se destacar.

A crina deve ser larga... Cola fina: suspeitar! Somente buena pra atar, para "iludir o freguês", que é do Árabe ou Inglês que pode se originar.

Foi esse cavalo bueno, trazido por espanhóis e, depois de muitos sóis, por aqui se reproduziu e o continente invadiu qual praga de caracóis.

E a pastar sempre ao léu, caçado pela indiada, para servir de montada, por vezes carne les deu, pois o índio é mui "judeu" e aos outros nem deixa nada!

Tendo o número aumentado, foi virando chimarrão... Cola arrastando no chão, procriou ao "Deus dará", junto à onça e ao guará, a correr pelo rincão...

Aguentando as intempéries, muita chuva, muito frio, minuano, sede no estio, foi formando o seu valor: pra domar "dava calor" e afrouxar nunca se viu!

Foi assim que ele venceu as forças da Natureza, pela sua fortaleza pra dar vida ao Continente, que tudo deve ao valente, que é ardor, força e beleza!

A liberdade que tenho - eu e todo o bom gaúcho - despidos de qualquer luxo, devemos toda ao Crioulo, que foi o nosso consolo, para "aguentá o repuxo"!

Nas cruas guerras passadas, tão bela parte tomou que o guasca as glórias ligou ao valor dessa montada, pois até de madrugada o pingo, firme, aguentou.

Foi assim em "Trinta e Cinco", na campanha Farroupilha: o Crioulo na coxilha, só tendo capim no bucho. Foi comparsa do gaúcho da argola até a presilha.

O mesmo em "Noventa e Três" ou em "Trinta" ou noutra data. O gaúcho não maltrata mas, se querem maltratá-lo, se tentarem "esporeá-lo", ele logo se "desata"!

Em "Vinte e Três" também foi um companheiro ideal. Na serra, no pajonal, ele só se aguentou: muito mestiço afrouxou, por não ter valor igual!

Poderia ir muito longe, descrevendo o meu cavalo... Mas deixo aqui de exaltá-lo, como pingo do gaúcho, que sabe "aguentá repuxo", de coração adorá-lo.

Por isso remato a "trança", antes que saia algum "bolo", embora fique o consolo de tê-lo cantado assim: um pingo que não tem fim - O meu cavalo Crioulo!